Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Martha Medeiros

Painting by Hamda M. Almannai


 
e raramente em mim - concha adversa - 
me fecho nessa mudez que pesca o verso

  Adrianna Coelho 

 
me despe às cegas horas do dia 
e despede-se às claras horas do dia 

Adrianna Coelho

   
 de repente assustam-me os teus destroços abandonados 
à superfície dos meus olhos rasos de água 

Adrianna Coelho

 
aquelas noites não nos deixaram para trás
 mas sozinhos  

Adrianna Coelho

 
prendo-me ao que se move 
para retirar da dor a monotonia

Adrianna Coelho

 
na parede morta 
minha natureza toda sem assinatura

Adrianna Coelho

saturada de azul 
de um quase nu vinho púrpura magenta

Adrianna Coelho

 
inda ouço tuas conversas 
 com sombras e brumas

Adrianna Coelho

 
ainda te espero 
naquele cais que nos invade a alma

Adrianna Coelho

 
arrisca em mim o que quebre o que grite 
o que desaninhe meu tigre e meu riso

Adrianna Coelho

 
achei o jeito de anoitecer os silêncios
 cheia de luas e lenhas

Adrianna Coelho

 
esse olhar mudo de retrato 
esse jeito de ser tempestade e nenhum dique

Adrianna Coelho

 
só em teus ventos me refaço duna

Adrianna Coelho

 
 há um desejo horrível em mim; tenso bruto cru. que não cala. 
odeio o barulho que ele faz triturando os vazios.

Adrianna Coelho

 
escrevo ao acaso até o fim da linha 
 até o ponto em que me encontro febril

Adrianna Coelho

 
e haverá um hiato na minha existência onde me terás exausta e suspensa 
na plenitude breve do êxtase

Adrianna Coelho